| Foz do rio Lizandro (extremo Sul do antigo couto Ericeira-Mafra) |
Na Idade Média, os limites territoriais não eram cartografados como hoje. A divisão das herdades trocadas no escambo exigia que oficiais régios (tabeliães e porteiros) percorressem os terrenos e plantassem marcos e padrões de pedra para assinalar fisicamente onde começava e terminava a jurisdição do rei ou dos fidalgos.
(continuação)
"... Este termo foi demarcado pelo porteiro Rodrigo Afonso, com cerca de cinquenta marcos e padrões, começando pela parte Sul da Ericeira com a seguinte demarcação (20) :
1º Marco - 'A par do Vale da escada, em ribamar (ribas) na carreira (caminho) que vai da Ericeira para Sintra no herdamento (herdade) de Johan Paaez (João Pais)' (21)
Hoje não é conhecido este Vale de Escada. Pensamos em duas hipóteses: 1ª - no vale que começa junto ao Burnay, prolongando-se para o Vale da Encosta da Franca, onde em tempos correu a Ribeira do Pomar das Velhas. 2ª - Um pequeno vale junto às arribas, pela parte Norte do Miradouro que encontramos antes de chegar à Praia do Lizandro. Os pescadores da Ericeira que pescam na baixa-mar (malhada) denominam esta zona como a "Malhadinha". Desconhecemos a herdade do tal João Pais, mas um pouco a nascente deste vale existem ruínas de casas.
2º Marco - 'Em cima do viso.'
Segundo pensa o autor, este viso seria um cabeço que fica a Sul do Casal Saloio, pois existiu não há muito tempo o termo de viso ou facho, pertencente ao Reguengo da Carvoeira.
3º Marco - 'A par das casas da ffonte (fonte) de paay coton.'
desconhecido completamente.
4º Marco - 'Colocado no curral do referido João Pais'.
Desconhecemos em virtude de continuarmos a não saber onde era a herdade do tal João Pais.
5º Marco - 'Olho da Ffonte Bõa.'
No que é hoje a povoação de Fonte Boa da Brincosa.
6º Marco - 'No herdamento de Johan Paaez, com a extrema de cabeça de D. Miguel'.
Mais uma referência ao tal João pais, mas desta vez já nos limites da sua propriedade, pois menciona a "cabeça" (herdade) de D. Miguel, que também se desconhece.
7º Marco - 'Herdamento da erança (herança) de paayo da serra (Paio da Serra).'
Esta demarcação refere-se ao que é hoje a povoação da Lapa da Serra.
8º Marco - 'Nas arroteas.'
Visitámos umas terras de cultivo, que ainda hoje dão o nome de arroteas. Ficam na encosta do monte a Leste da povoação da Lapa da Serra.
9º Marco - 'Lageãs'.
Desconhecido, mas não ficará muito longe desta encosta que vai dar ao Vale da Vidigueira.
10º Marco - 'Vale melhorando.'
Como atrás referimos é o vale pela parte Leste-Sueste da povoação da Lapa da Serra, também conhecido hoje como terras do Vale da Vidigueira, com a ribeira do mesmo nome, que vai desaguar ao Rio de Cheleiros (Lizandro).
11º/12º Marcos - 'Cabeças dos perros (cães) e sobrela (sobre) da Vidigueira.'
Possivelmente alguma designação hoje desconhecida, mas como o nome indica, já "sobre" as terras da Vidigueira, portanto na encosta para o Azambujal.
13º Marco - 'Cobões (terras) das fontes de louro.'
Ainda hoje estas terras de cultivo são conhecidas como os "cobões" assim como, perto destas terras existe uma pequena fonte, possivelmente será esta a Fonte do Louro.
14º/15º/16º Marcos - 'No Azambujal.'
Estes três marcos estavam colocados numa herdade daquela época com este nome, que hoje é uma povoação, com uma quantidade de habitações de número significativo. Para quem não conhece é a povoação que encontramos à beira da estrada quando saimos da Senhora do Ó para Mafra.
17º Marco - 'Cabeça e lugar dos Velhos.'
Hoje uma pequena povoação ligada ao Azambujal, naquela época segundo descreve a carta de D. Dinis, era dos poucos sítios perto da Ericeira que tinha algumas habitações. Hoje tem a designação de Casas Velhas.
18º Marco - 'Fonte de paay queveõ.'
Perguntámos a várias pessoas do Azambujal onde ficava esta fonte de Paiquevem, ninguém nos soube dizer, até que encontrámos o sr. Manuel Formiga que nos levou ao local. Apenas um molho de silvas tapando o que possivelmente era uma fonte. Segundo o sr. Manuel Formiga (actualmente com setenta anos), quando era jovem bebeu água daquela fonte. A fonte fica na parte Sul do Azambujal, uns dois a três quilómetros da povoação do Urzal. (continua)
"História da Ericeira", 1ª edição - 1998 de Leandro Miguel dos Santos
(20) - Tentámos fazer um levantamento no local, seguindo a linha de demarcação. No entanto foi-nos impossível fazê-lo totalmente. O que conseguimos fazer trouxe-nos agradáveis surpresas: verificámos que passados quase setecentos anos existem herdades ou terras cultivo com os mesmos nomes. Falámos com populações, geralmente com as mais idosas, que sempre viveram nestes locais, para que nos esclarecessem mais alguns dados. A todas essas simpáticas pessoas, aqui deixamos o nosso sincero obrigado, pela grande franqueza e disponibilidade com que nos receberam.
(21) - Utilizaremos uma ortografia um pouco aproximada à escrita antiga. De igual maneira que utilizou o autor, Luiz de Pina Manique, no artigo do Boletim Cultural de 1954, da Junta Distrital de Lisboa, donde transcrevemos esta demarcação. O Dr. António Bento Franco deixou-nos algo escrito, em que menciona que ainda conheceu um destes marcos ou padrões.

















