terça-feira, 15 de setembro de 2026

O Escambo de Portel (3)

 

Foz do rio Safarujo - S. Lourenço (extremo Norte do antigo couto Ericeira-Mafra)


O Rio Safarujo com cerca de 29km de extensão tem a nascente a 270m de altitude, no Milharado. Atravessa a Tapada Nacional de Mafra e junta-se ao oceano Atlântico na Praia de São Lourenço, terminando na sua foz a demarcação do antigo couto Ericeira-Mafra.

 

(conclusão)

 19º marco - 'No herdamento do cordeiro he chamam Montesouros.'

Montesouros é actualmente uma povoação, pela parte Sul do Azambujal, a uns três quilómetros. Fomos visitar esta povoação, e depois de perguntarmos a duas ou três pessoas, tivemos a sorte de encontrar o sr. Vicente, que nos disse onde ficava o cordeiro. Por casualidade ele ainda tem "um bocado de terra" nesse pequeno Vale do Cordeiro. Fica sensivelmente a Oeste da povoação de Montesouros, ou seja, entre esta povoação e a povoação do Urzal.

20º marco - 'Apar das casas de Johan Dominguez (João Domingos) e Domingos Cordeiro.'

Desconhecido. Pensamos que estas casas fiquem onde hoje é Montesouros. João Domingos e Domingos Cordeiro, seriam pai e filho devido à troca do nome, que era regra utilizada naquelas épocas, apesar de não ser rigorosa essa regra e à qual aparecem excepções. O nome de Cordeiro foi o topónimo que serviu de designação ao marco anterior.

21º / 22º marcos - 'No herdamento de Don Gil de Vila Fria.'

A herdade de D. Gil não sabemos, mas Vila Fria é designação hoje conhecida.

23º / 24º / 25º marcos - 'Na ribeira de Maçal-forno, moyo (moinho) da bruma e azenha de Gil Ortiga.'

Desconhecidos. Ficariam no que é hoje Muchalforno.

 26º marco - 'No Porto de Bóóco (Boco).'

Dava-se o nome de porto a qualquer passagem que atravessasse algum rio ou ribeiro. Boco é hoje uma povoação conhecida.

27º / 28º marcos - 'Nos portos de Sintra e Montureiro.'

Desconhecidos. Mas tal como o anterior era um porto de passagem. Podemos seguir a demarcação a partir de alguns marcos seguintes.

29º marco - 'Vale de Lisboa.'

Desconhecido. Pensamos que se situará a Sueste de Mafra.

30º / 31º marcos - 'Herdamento dafonso (Afonso) Peres e cabeça do mosqueiro.'

Desconhecidos. Pensamos que devem se situar já dentro da actual Tapada de Mafra.

32º / 33º marcos - 'Serra de móós (Mós) e vale do merlóó (melro).'

Desconhecidos. Julgamos que se situam dentro da Tapada de Mafra, a Leste de Mafra e Este-Nordeste.

34º marco - 'Cabeço da Murjeira.'

Povoação a Nordeste de Mafra. A seguir a este marco a demarcação seguia na direcção do curso da Ribeira do Sobral, ou do Safarujo, que vai desaguar junto à povoação de S. Lourenço.

...36º marco - 'Na riba do rio a que chamam o Codessal.'

Codeçal é hoje bastante conhecido, fica sensivelmente a norte de Mafra.

37º marco - 'No porto do Codessal no herdamento dos Gaffos.'

Neste porto, o padrão marcava o encontro dos três termos: Mafra, Sintra e Torres Vedras, visto que antigamente os territórios das freguesias de Alcainça, Cheleiros, Sobral da Abelheira e Fanga da Fé (actual Encarnação) pertenciam aos termos de Sintra e de Torres Vedras.

38º marco - 'No porto da Lageã (Lage) no herdamento de Vicente Cachouço.'

Desconhecido.

39º marco - 'Na amoerira do herdamento de Santa Cruz.'

Amoreira é hoje os Casais de S. Pedro da Amoreira.

40º marco - 'No porto do Soveral (Sobral).'

No que é hoje a vila do Sobral da Abelheira.

41º marco - 'No lagar que foi da riorta direita da Abelheira.'

Na mesma vila, Sobral da Abelheira.

42º marco - 'No porto de Santa Margarida.'

Designação hoje conhecida, perto da Picanceira.

43º marco - 'Nos picanços (Picanceira) dereito (direito) da quintaam (quinta) que ffoy da Reya (Rainha) e chamam Fanga da ffé.'

 Este marco tem várias designações ainda hoje conhecidas. Picanços é a actual povoação da Picanceira. Quintaam da Reya é a denominação da quinta que era da Rainha Santa Isabel, por doação feita em Santarém a 28 de Novembro de 1298, de El-Rei D. Dinis à Rainha Santa, dando lugar ao que é hoje a povoação de Quintas da freguesia da Encarnação. A demarcação deste couto não passava para o Norte do curso do Ribeiro do Safarujo. A menção à quinta da Rainha é apenas para definir onde ficavam os picanços (Picanceira).

...45º marco - 'Nos moyos (moinhos) de Martim Filho.'

46º marco - 'No porto e vya (caminho) dos frades doya (Santa Maria de Oia).'

Este porto é hoje a povoação do Safarujo, que fica a Sul do que era o Mosteiro de Santa Maria de Oia, da Galiza, o qual foi fundado por frades galegos, concessão dada por D. Afonso Henriques e confirmada por seu filho D. Sancho I. Hoje ainda existe uma pequena capela no cimo desse monte. Ao redor desta capela encontramos as ruínas do que teria sido o mosteiro e junto à capela, algumas lápides datadas do século passado (sec. XIX).

Ao visitarmos estes lugares, falando com pessoas da povoação da Galiza (topónimo originário deste Mosteiro) ficámos a saber que, hoje, o vale tem duas denominações: para Leste, junto ao antigo Mosteiro, é conhecido por Vale dos Frades, mais para Oeste é conhecido como o Vale do Inferno. Desconhecemos a data da extinção deste Mosteiro. Pensa-se que o rio foi navegável até ao Mosteiro, no que é hoje a povoação do Safarujo. O caminho mencionado neste marco, deve ser o caminho que seguia pela margem Sul do ribeiro, em direcção a Ribamar, na encosta do Cacho Longo. Esta encosta fica pelo Norte da primeira curva que encontramos na estrada depois de passar a ponte de S. Lourenço, para quem vem no sentido Norte-Sul. Ainda hoje se chama à vinha dessa encosta, Cacho Longo.

47º marco - 'Na riba da agua hu chamam a ffoz de Santa Susana.'

Este era o último marco desta demarcação cujo território ficava compreendido entre as ribeiras: Cheleiros a Sul (Lizandro) e do Safarujo ou Codeçal a Norte (S. Lourenço) fazendo extremo um pouco a Nascente da vila de Mafra, o que se poderá considerar como demarcações das actuais freguesias: Mafra, Santo Isidoro e Ericeira.

A foz ou praia conhecida hoje como de S. Lourenço, é uma denominação mais recente que começou nos finais do século passado (XIX), mantendo-se durante todo este século (XX). Anteriormente era conhecida como Santa Susana, tendo existido o forte seiscentista nas ribas da parte Sul desta praia com esse nome. A povoação de S. João Baptista de Ribamar, apesar de já existir aquando da construção do forte, a qual é mencionada no registo das cidades, vilas e lugares da Comarca da Estremadura em 1527 (22), é durante a construção deste forte no século XVII que se dá a grande expansão demográfica, pela fixação dos trabalhadores que estavam construindo o forte. Depois da construção do forte a grande maioria dos trabalhadores fixaram residência nesta povoação. Talvez venha daí o erro que certas pessoas cometem ao considerarem que a povoação de Ribamar é originária da construção do forte de Santa Susana.  

(22) - Com seis vizinhos, ou seja seis fogos. 

"História da Ericeira", 1ª edição - 1998 de Leandro Miguel dos Santos 

O Escambo de Portel (2)

 

Foz do rio Lizandro - Carvoeira (extremo Sul do antigo couto Ericeira-Mafra)


 Na Idade Média, os limites territoriais não eram cartografados como hoje. A divisão das herdades trocadas no escambo exigia que oficiais régios (tabeliães e porteiros) percorressem os terrenos e plantassem marcos e padrões de pedra para assinalar fisicamente onde começava e terminava a jurisdição do rei ou dos fidalgos.

 


(continuação)

"... Este termo foi demarcado pelo porteiro Rodrigo Afonso, com cerca de cinquenta marcos e padrões, começando pela parte Sul da Ericeira com a seguinte demarcação (20) :

1º marco - 'A par do Vale da escada, em ribamar (ribas) na carreira (caminho) que vai da Ericeira para Sintra no herdamento (herdade) de Johan Paaez (João Pais)' (21)

Hoje não é conhecido este Vale de Escada. Pensamos em duas hipóteses: 1ª - no vale que começa junto ao Burnay, prolongando-se para o Vale da Encosta da Franca, onde em tempos correu a Ribeira do Pomar das Velhas. 2ª - Um pequeno vale junto às arribas, pela parte Norte do Miradouro que encontramos antes de chegar à Praia do Lizandro. Os pescadores da Ericeira que pescam na baixa-mar (malhada) denominam esta zona como a "Malhadinha". Desconhecemos a herdade do tal João Pais, mas um pouco a nascente deste vale existem ruínas de casas.

2º marco - 'Em cima do viso.'

Segundo pensa o autor, este viso seria um cabeço que fica a Sul do Casal Saloio, pois existiu não há muito tempo o termo de viso ou facho, pertencente ao Reguengo da Carvoeira.

3º marco - 'A par das casas da ffonte (fonte) de paay coton.'

Desconhecido completamente.

4º marco - 'Colocado no curral do referido João Pais'.

Desconhecemos em virtude de continuarmos a não saber onde era a herdade do tal João Pais.

5º marco - 'Olho da ffonte Bõa.'

No que é hoje a povoação de Fonte Boa da Brincosa.

6º marco - 'No herdamento de Johan Paaez, com a extrema de cabeça de D. Miguel'.

Mais uma referência ao tal João pais, mas desta vez já nos limites da sua propriedade, pois menciona a "cabeça" (herdade) de D. Miguel, que também se desconhece.

7º marco - 'Herdamento da erança (herança) de paayo da serra (Paio da Serra).'

Esta demarcação refere-se ao que é hoje a povoação da Lapa da Serra.

8º marco - 'Nas arroteas.'

Visitámos umas terras de cultivo, que ainda hoje dão o nome de arroteas. Ficam na encosta do monte a Leste da povoação da Lapa da Serra.

9º marco - 'Lageãs'.

Desconhecido, mas não ficará muito longe desta encosta que vai dar ao Vale da Vidigueira.

10º marco - 'Vale melhorando.'

Como atrás referimos é o vale pela parte Leste-Sueste da povoação da Lapa da Serra, também conhecido hoje como terras do Vale da Vidigueira, com a ribeira do mesmo nome, que vai desaguar ao Rio de Cheleiros (Lizandro).

 11º / 12º marcos - 'Cabeças dos perros (cães) e sobrela (sobre) da Vidigueira.'

Possivelmente alguma designação hoje desconhecida, mas como o nome indica, já "sobre" as terras da Vidigueira, portanto na encosta para o Azambujal.

13º marco - 'Cobões (terras) das fontes de louro.'

Ainda hoje estas terras de cultivo são conhecidas como os "cobões" assim como, perto destas terras existe uma pequena fonte, possivelmente será esta a Fonte do Louro. 

14º / 15º / 16º marcos - 'No Azambujal.'

Estes três marcos estavam colocados numa herdade daquela época com este nome, que hoje é uma povoação, com uma quantidade de habitações de número significativo. Para quem não conhece é a povoação que encontramos à beira da estrada quando saimos da Senhora do Ó para Mafra.

17º marco - 'Cabeça e lugar dos Velhos.'

Hoje uma pequena povoação ligada ao Azambujal, naquela época segundo descreve a carta de D. Dinis, era dos poucos sítios perto da Ericeira que tinha algumas habitações. Hoje tem a designação de Casas Velhas.

18º marco - 'Fonte de paay queveõ.'

Perguntámos a várias pessoas do Azambujal onde ficava esta fonte de Paiquevem, ninguém nos soube dizer, até que encontrámos o sr. Manuel Formiga que nos levou ao local. Apenas um molho de silvas tapando o que possivelmente era uma fonte. Segundo o sr. Manuel Formiga (actualmente com setenta anos), quando era jovem bebeu água daquela fonte. A fonte fica na parte Sul do Azambujal, uns dois a três quilómetros da povoação do Urzal.  (continua)

 

(20) -  Tentámos fazer um levantamento no local, seguindo a linha de demarcação. No entanto foi-nos impossível fazê-lo totalmente. O que conseguimos fazer trouxe-nos agradáveis surpresas: verificámos que passados quase setecentos anos existem herdades ou terras de cultivo com os mesmos nomes. Falámos com populações, geralmente com as mais idosas, que sempre viveram nestes locais, para que nos esclarecessem mais alguns dados. A todas essas simpáticas pessoas, aqui deixamos o nosso sincero obrigado, pela franqueza e disponibilidade com que nos receberam.

(21) - Utilizaremos uma ortografia um pouco aproximada à escrita antiga. De igual maneira que utilizou o autor, Luiz de Pina Manique, no artigo do Boletim Cultural de 1954, da Junta Distrital de Lisboa, donde transcrevemos esta demarcação. O Dr. António Bento Franco deixou-nos algo escrito, em que menciona que ainda conheceu um destes marcos ou padrões.

 "História da Ericeira", 1ª edição - 1998 de Leandro Miguel dos Santos 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O Escambo de Portel (1)

 

Castelo de Portel


     D. Maria Anes de Aboim e seu marido D. João Fernandes de Limia, apesar de só tomarem posse do couto já demarcado do termo Ericeira-Mafra em 1304, tinham começado as negociações para o "Escambo de Portel" entre o ano de 1289 e 1291, sendo por isso considerados como donatários ainda durante o século XIII.

 

A 9 de Janeiro do ano de 1289, em Santarém, começam as negociações  para a permuta que ficará conhecida como o "Escambo de Portel", entre El-Rei D. Dinis e D. Maria Anes de Aboim. Negociações essas que só irão terminar alguns anos mais tarde. Nesta data, dão-se os primeiros passos para esta permuta entre D. Dinis e a filha de D. João Peres de Aboim e de D. Marinha Afonso, dona legítima do castelo de Portel, apesar do irmão se opôr.

 Alguns anos depois, em Salvaterra de Magos, pelo ano de 1301 de Jesus Cristo, o público notário de Santarém, Domingos Martins, na presença de El-Rei D. Dinis, sua mulher a Rainha D. Isabel, o Príncipe herdeiro D. Afonso e de Martim de Avelar, cavaleiro vassalo e mordomo de D. João Fernandes de Limia e de sua mulher D. Maria Anes de Aboim, procedeu à leitura da permuta que ficou conhecida por "Escambo de Portel".

D. João Fernandes de Limia e D. Maria Anes de Aboim, legítimos donos do Castelo de Portel (17) e de todos os seus termos, assim como da Herdade do Monte-de-Trigo, no termo de Évora, as azenhas do Guadiana e cem libras que o Mosteiro do Marmelar da Ordem do Hospital (18) usava pagar ao Castelo de Portel.

Passaram a procuração a 15 de Novembro do ano anterior a Martim de Avelar, com todos os poderes para ceder a El-Rei D. Dinis os bens mencionados, recebendo em troca, de El-Rei, as vilas de Évora-Monte, Mafra-Ericeira, com todos os seus termos, assim como a terra de Aguiar de Neiva, chamada o "Voytorio", obrigando-se D. Dinis a coutar as referidas vilas e lugares, em virtude dos termos recebidos já serem coutados.

Três anos mais tarde, a 20 de Fevereiro de 1304, em Santarém, procedeu-se à entrega da carta mandada passar por D. Dinis, com o acordo da Rainha D. Isabel e do Príncipe herdeiro D. Afonso, na qual D. Dinis tornava bem definida esta permuta, entregando definitivamente a posse dos bens a D. Maria Anes de Aboim e seu marido, tendo já sido demarcados todos estes termos, pelo porteiro Rodrigo Afonso.

Esta carta não menciona concretamente as povoações de Mafra e Ericeira, mas sim todo o couto demarcado (19), dando aos futuros habitantes doutros povoados que surgissem, os mesmos privilégios que essas povoações mantinham com os respectivos Forais.

Mafra e Ericeira eram os núcleos povoados com maior importância. A Ericeira vivendo do seu porto de pesca e algum comércio, dependendo apenas de si própria. Mafra mantinha a feição do isolamento duma povoação rodeada por grandes herdades.

 No restante território demarcado, haveria cerca de umas vinte extensas herdades, cinco ou seis moinhos e azenhas nas ribeiras de Vidigueira, Maçalforno, Soveral (Sobral), assim como na Quinta da Fanga da Fé (S. Domingos, Encarnação). Apenas duas ou três casas perto da Ericeira, no Lugar dos Velhos (Casas Velhas), além dumas quatro ou cinco habitações perto de Mafra.

Além dos marcos e padrões (que falaremos em seguida), nada mais era mencionado na referida carta, selada com o selo de chumbo do Rei e confirmada pelas suas próprias mãos, durável para todo o sempre. Este termo foi demarcado pelo porteiro Rodrigues Afonso, com cerca de cinquenta marcos e padrões, começando pela parte Sul da Ericeira..."  (continua)

 

(17) - O Castelo de Portel tinha sido doado em 1262, pelo Rei D. Afonso III, ao seu Mordomo-Mor D. João Peres de Aboim, pai de D. Maria Anes de Aboim, a qual tomou posse do Castelo de Portel em 1287, por falecimento de seu pai, quando já era viúva de D. Martim Afonso Telo. Seu irmão, D. Pedro de Portel, contesta tal herança, metendo uma demanda, após prolongada disputa, um pouco antes de 1301. Ganha o litígio D. Maria Anes de Aboim, que em 1291 já era novamente casada com D. João Fernandes de Limia, de alcunha "O Batissela", fidalgo galego, homem-rico, o qual morre em 1315.

(18) - D. João Fernandes e D. Maria Anes de Aboim mantiveram todos os outros direitos sobre o Mosteiro do Marmelar, com os respectivos privilégios que detinham na Ordem do Hospital. Doação feita aos Hospitalários por D. João Peres de Aboim, o qual foi o fundador daquele Mosteiro em 1258. D. João Peres de Aboim descendia de uma nobre família do Minho, era filho de D. Pedro Ourigues da Nóbrega e neto de D. Eurigo Velho da Nóbrega. Quando D. Afonso III, ainda Infante, casou em Bolonha, este seu rico-homem acompanhou-o a França nesse seu matrimónio. Foi bastante estimado por este Rei, um dos seus maiores validos, juntamente com Estêvão Anes, este último, mais tarde foi casado com uma filha bastarda de El-Rei D. Afonso III, que se chamava D. Leonor Afonso.

(19) - Couto, originalmente era todo um território onde podiam viver impunemente toda a espécie de foragidos. A criação de coutos era feita da seguinte maneira: fundava-se um Convento num sítio deserto, e os frades, para conseguirem atrair as populações a essas terras, pediam ao Rei que coutasse as terras, o que também acontecia com os fidalgos quando queriam povoar as suas terras. O couto era uma espécie de concelho governado pelas suas próprias leis. D. Pedro II, em 1692, aboliu estes coutos como territórios protectores dos foragidos, apesar dos criminosos continuarem a ser algumas vezes protegidos com as famosas "cartas de seguro", com as quais podiam circular pelo Reino impunemente, excepto pelas terras onde tinham cometido os crimes.  Assim como continuou a protecção e os privilégios a certos criminosos em algumas feiras do Reino, excepto se os crimes tivessem sido cometidos nessas feiras. A Constituição Liberal de 1820 aboliu todos esses privilégios.

"História da Ericeira", 1ª edição - 1998 de Leandro Miguel dos Santos  

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Árula dedicada às fontes

 


 

A Ericeira era na antiguidade conhecida pelas suas imensas minas de água e copiosas cascatas que caiam das falésias nas suas praias. As mais famosas eram as denominadas águas medicinais de Santa Marta. A comprová-lo, este achado de "pedra míto" de origem romana:

 

 Descoberta, em 1947, no n.º 5 da Travessa da Misericórdia (antigo Casão da Armação e anterior Paço dos Morgados da Ericeira), este pequeno altar votivo provavelmente de cariz privado, dada a sua pequena dimensão, está identificado com um culto generalista (não individualiza o objeto de culto), sugerindo-se o culto das águas.

Esta árula, datada do século II, poderá tratar-se de uma "pedra mito", referenciada desde o século XV como pertencendo ao altar de Santa Marta. O documento original que a identifica descreve uma audiência nos Paços do Concelho da Ericeira em que um homem chamado Gomes Leite era condenado a entregar uma "pedra mito", pertencente a Santa Marta.

Uma vez que Santa Marta está relacionada com águas medicinais, e pelo facto de ter sido descoberta, em 1484, uma "pedra mito" em escavações perto do atual local de Santa Marta, a árula tem sido também associada a estas águas medicinais. Um culto, aliás, muito conhecido na vila da Ericeira ao longo dos séculos, existindo vários documentos que proíbem os cultos pagãos das águas.

 


 Leitura:

 ATILIA . PVB[L(ii) FI] / [L(ia)] . AM[O]E[NA] / FONTI[BVS] / A(nimo) . [L(ibens)] [P(ossuit)] 

Tradução:

 Atília Amena, filha de Públio, colocou esta árula de boa vontade às fontes

Localização actual: Arquivo-Museu da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Os Jagozes do meu tempo

 

Uma raça muito especial. Para que não hajam dúvidas...

Os jagozes do meu tempo bebiam água de Santa Marta, comiam peixe da lota a semana toda e só alteravam o "meniú" ao Domingo para se lambuzarem de arroz com frango. Muito mais arroz que frango, e bem desfiadinho para dar para todos. A sobremesa iam apanhar à árvore do quintal do lado. E eram saudáveis e felizes. ...Agora encomendam "junk food" e frequentam os centros de saúde para tratarem da "azia".

 Os jagozes do meu tempo brincavam na rua em segurança, só importunados pelo chinelo da velhota quando os ia buscar já fora de horas. Jogavam ao pião, ao berlinde "às três bajocas", e até tinham máfia dos "abafadores". Eram campeões olímpicos a brincar à "apanhada" e a fugir do sr. guarda quando partiam o vidro da janela da vizinha com uma bolada. Eram elegantes, por força das circunstâncias, tinham genica para dar e vender e... eram felizes. ...Agora brincam em casa, são balofos por defeito e sofrem de miopia precoce porque passam a vida no telemóvel a "praticar" nas redes sociais e a exercitar os "neuróniums" a "scrollar" no comando do LCD, para consumir todo o tipo de telelixo.

Os jagozes do meu tempo faziam as próprias "viaturas" para as corridas de rua que consistiam numa cana com uma cortiça das redes de pesca a fazer de volante, e "direcção assistida" feita com um caniço mais fino com mais duas cortiças a simular as rodas, encaixadas na ponta da "suspensão", que era a cana ou "chassis". Passeavam à "gancheta" feita de um aro de metal que fora antes o suporte da bacia do "lavatório" de quarto da avó e que fazia de roda grande, guiada pelo "bicheiro" do avô ir aos polvos na Malhadinha, já retorcido e adaptado para bem "enganchar", mesmo enganchando depois umas berduadas em casa. E eram felizes. ...Hoje usam carros a sério e de "série", aceleram nas ruas a 80 onde só se pode andar a 30, passam sinais vermelhos como quem descasca tremoços, e estacionam em cima dos passeios, como se fossem "garagens particulares". 

 Os jagozes do meu tempo tinham sempre lugar para estacionar as bicicletas que os pais lhes ofereciam pelo Natal ou que gamavam no bairro rival, e não precisavam de usar correntes com cadeado. Se desapareciam, bastava fazer uma rusga aos quintais mais próximos e lá estava ela; com as rodas já trocadas e o quadro repintado, mas com os mesmos travões e o mesmo selim. E quem não tinha dinheiro para comprar bicicleta nova ou em segunda mão, fazia uma trotineta caseira, com tecnologia avançada de impulso "coice de mula" ou construía um carrinho de rolamentos todo GTX e com travões ATTS (Até os Ténis Terem Sola). E eram felizes. ...Agoram andam de trotinete eléctrica toda XPTO com um pezinho à frente e outro atrás como as meninas do ballet, circulam na via pública e até nas estradas como se conduzissem uma Harley Davidson, atravessam as passadeiras dos peões sem desmontar e chegam a casa estafados de tanto apertarem os glúteos do inhoff, na tentativa de corrigir o desalinhamento da coluna dorsal.

Os jagozes do meu tempo iam ao muro das "Ribas" para espreitar a praia dos pescadores e ver o tractor do ti Carlos puxar para terra os barcos que chegavam do mar ou empurrar para a água os que iam para a faina. Aos Domingos iam à missa e ao futebol para depois se reunirem todos no largo do "Jogo da Bola" para meterem a sua "rede social" em dia. Até tinham câmeras de vigilância em todas as ruas; as vizinhas à janela. E todos se cumprimentavam com um "então 'nha belha", que é um termo carinhoso por cá ... Agora ouve-se mais o "hi old boy" dos forasteiros. Os novos habitantes.

Por falar em surf, os jagozes do meu tempo já praticavam "surf" mesmo só com o "body" como os golfinhos ou seja, só com o corpo, sem prancha nem nada. Era uma especialidade só deles. Depois os banhistas trouxeram os colchões de encher e passou-se a praticar as "carreirinhas". Por cima das rochas e tudo... Mais tarde tornaram-se mais sofisticados e os  colchões ficaram mais pequenos, "em bico", para melhores performances e já com turbo; barbatanas de borracha. ...Agora, bem, vocês sabem; só falta terem asas e motor a jacto.

Os jagozes do meu tempo iam no verão engatar as inglesas para a porta do hotel (acabavam quase sempre engatados por elas) com ar de galãs de cinema e no inverno iam trabalhar para as obras. Mas sempre com "style". Patrulhavam o bairro e mantinham o respeito nas ruas. Adiantavam-se sempre à polícia quando era preciso aplicar a "Lei". Na passagem do ano deixavam as árvores do "Jogo da Bola" enfeitadas de caixotes de lixo e garrafas de gás pendurados como se fossem bolas numa árvore de Natal e iam para o adro da igreja nas festas e romarias roubar os bolos das bancadas das saloias durante o foguetório com os caniços dos foguetes equipados com um corte na ponta, tipo arpão. Nunca andavam com mais de vinte e cinco tostões no bolso e sempre trocados. ...Agora vão para as pastelarias tomar o "breakfast" com o dedo mindinho esticado, cheios de fleuma e deixam sempre metade por consumir para demonstrar como são "chic", que se a palavra não vier do francês, vem de certeza de "chiqueirês".

 Para os jagozes do meu tempo o que vai restando da Ericeira de então, hoje tão moderna, tão "global", tão descaracterizada? A capela de S. Sebastião? A Fonte do Cabo? O miradouro da "Sala das visitas"? A silhueta actual do velho Hotel de Turismo? Algumas fachadas típicas deixadas intactas por misericórdia arquitectónica? As velhas Furnas? Talvez o eterno vai-vem das ondas daquele mar tão azul... que vai perdendo o brilho e a cor.

Talvez um dia destes já não lhe chamem mais, Ericeira. Só, Surfeira... 

 

Mas a verdadeira, velha e típica Ericeira estará sempre guardada na memória e no coração dos jagozes do meu tempo.

Até todos, aos poucos, nos irmos embora. 

domingo, 20 de julho de 2025

O foral de 1229

 

Foral de 1229


Em Dezembro de 1189, em Coimbra, o rei D. Sancho I  faz doação da Vila de Mafhara a D. Nicolau bispo da cidade de Silves (recentemente conquistada aos mouros), o qual em Março de 1190 concede o primeiro Foral aos moradores desta vila de Mafra, com todos os seus termos (onde se incluia a vila da Ericeira). 

A 10 de Agosto de 1218, em Coimbra, o rei D. Afonso II confirma a doação que seu pai D. Sancho I tinha feito à Ordem Militar de Évora do castelo de Mafra, em virtude da perda uns anos antes da cidade de Silves que retornara novamente para a posse muçulmana.

D. Fr. Fernão Anes, eleito em 1196 terceiro Mestre da Ordem e Cavalaria de Évora, assina em 1218 os termos do acordo de transferência (informal) da Comenda de Santo Isidoro de Ribamar, da Ordem do Templo para a transitária Ordem de São Bento de Avis. O Mestre permanece por algum tempo na Herdade de Chãos fazendo dela a sua residência temporária até que a transição se complete.

Em 1219 D. Fr. Fernão Rodrigues Monteiro é eleito 4º Mestre da Ordem e Cavalaria de Évora e 1º da Ordem de Avis (após a primeira ter sido para ali transferida) na presença do Rei de Portugal D. Afonso II, de sua mulher a Rainha D. Urraca, do Príncipe herdeiro D. Sancho e dos Infantes D. Afonso (mais tarde Afonso III), D. Fernando e D. Leonor.

 Tal como o seu antecessor, o Mestre D. Frei Fernão Rodrigues Monteiro habita periodicamente a Herdade de Chãos (antiga possessão Templária de Santo Isidoro) mantendo laços estreitos com a vila visinha da Ericeira à qual acaba por conceder em 1229 o primeiro Foral aos moradores da Vila regulando assim a relação destes com os seus donatários.

"(…) Quanto aos pescadores, deem a vigésima parte do pescado que matarem no mar. De doze peixes, levem um para conduto antes de darem a vigésima parte, e se matarem congro, comam-no. Do pescado que encontrarem morto, não paguem foro. De baleia, dêem a vigésima parte. De toninhas e delfins sem impedimento, em ocasiões de fome (…)". 

A Ericeira que já vinha assinalada em mapas antigos com as suas variantes de nome como Eyriceia, Ericeyra, Ericeya, etc. tornara-se um dos principais portos de mar do Reino. Com a atribuição do seu primeiro Foral subia assim a Sede de Concelho.

 

Ouriço cacheiro

sábado, 19 de julho de 2025

O Jagoz


O termo "Jagoz", tem sido usado para designar os habitantes da Ericeira, particularmente os pescadores. Diz-se que terá também origens antigas, possivelmente ligado a uma localidade de fundação fenícia. No entanto o termo "Jagoz" é seguramente muito anterior a qualquer uma das primeiras civilizações que aqui acostaram na antiguidade.
 
Os Jagus eram uma comunidade marítima, sub-grupo tribal dos Túrdulos Velhos que ocupavam toda a zona costeira, do Tejo ao Mondego. Terão visto chegar à sua costa os primeiros marinheiros gregos, os fenícios e os cartagineses que com eles interagiram. Foram, no entanto, os romanos quem lhes retirou a identidade tribal.
 
Durante a ocupação árabe o grupo étnico dos jagozes ficou reduzido ao povoado piscatório que seria o embrião da Vila da Ericeira e aí se manteve isolado, como uma ilha, rodeado da população rural a que deram o nome de "saloios" e com os quais sempre teve relações. Umas vezes boas, outras nem tanto. 
 
A designação de Jagoz chegou-nos portanto até hoje, fruto de uma herança cultural única, bem enraizada, fortemente apegada à tradição marítima de gerações e gerações de  Ericeirenses.
 
 
 
...ou deveríamos antes dizer Ericínios?