terça-feira, 15 de setembro de 2026

O Escambo de Portel (3)

 

Foz do rio Safarujo - S. Lourenço (extremo Norte do antigo couto Ericeira-Mafra)


O Rio Safarujo com cerca de 29km de extensão tem a nascente a 270m de altitude, no Milharado. Atravessa a Tapada Nacional de Mafra e junta-se ao oceano Atlântico na Praia de São Lourenço, terminando na sua foz a demarcação do antigo couto Ericeira-Mafra.

 

(conclusão)

 19º marco - 'No herdamento do cordeiro he chamam Montesouros.'

Montesouros é actualmente uma povoação, pela parte Sul do Azambujal, a uns três quilómetros. Fomos visitar esta povoação, e depois de perguntarmos a duas ou três pessoas, tivemos a sorte de encontrar o sr. Vicente, que nos disse onde ficava o cordeiro. Por casualidade ele ainda tem "um bocado de terra" nesse pequeno Vale do Cordeiro. Fica sensivelmente a Oeste da povoação de Montesouros, ou seja, entre esta povoação e a povoação do Urzal.

20º marco - 'Apar das casas de Johan Dominguez (João Domingos) e Domingos Cordeiro.'

Desconhecido. Pensamos que estas casas fiquem onde hoje é Montesouros. João Domingos e Domingos Cordeiro, seriam pai e filho devido à troca do nome, que era regra utilizada naquelas épocas, apesar de não ser rigorosa essa regra e à qual aparecem excepções. O nome de Cordeiro foi o topónimo que serviu de designação ao marco anterior.

21º / 22º marcos - 'No herdamento de Don Gil de Vila Fria.'

A herdade de D. Gil não sabemos, mas Vila Fria é designação hoje conhecida.

23º / 24º / 25º marcos - 'Na ribeira de Maçal-forno, moyo (moinho) da bruma e azenha de Gil Ortiga.'

Desconhecidos. Ficariam no que é hoje Muchalforno.

 26º marco - 'No Porto de Bóóco (Boco).'

Dava-se o nome de porto a qualquer passagem que atravessasse algum rio ou ribeiro. Boco é hoje uma povoação conhecida.

27º / 28º marcos - 'Nos portos de Sintra e Montureiro.'

Desconhecidos. Mas tal como o anterior era um porto de passagem. Podemos seguir a demarcação a partir de alguns marcos seguintes.

29º marco - 'Vale de Lisboa.'

Desconhecido. Pensamos que se situará a Sueste de Mafra.

30º / 31º marcos - 'Herdamento dafonso (Afonso) Peres e cabeça do mosqueiro.'

Desconhecidos. Pensamos que devem se situar já dentro da actual Tapada de Mafra.

32º / 33º marcos - 'Serra de móós (Mós) e vale do merlóó (melro).'

Desconhecidos. Julgamos que se situam dentro da Tapada de Mafra, a Leste de Mafra e Este-Nordeste.

34º marco - 'Cabeço da Murjeira.'

Povoação a Nordeste de Mafra. A seguir a este marco a demarcação seguia na direcção do curso da Ribeira do Sobral, ou do Safarujo, que vai desaguar junto à povoação de S. Lourenço.

...36º marco - 'Na riba do rio a que chamam o Codessal.'

Codeçal é hoje bastante conhecido, fica sensivelmente a norte de Mafra.

37º marco - 'No porto do Codessal no herdamento dos Gaffos.'

Neste porto, o padrão marcava o encontro dos três termos: Mafra, Sintra e Torres Vedras, visto que antigamente os territórios das freguesias de Alcainça, Cheleiros, Sobral da Abelheira e Fanga da Fé (actual Encarnação) pertenciam aos termos de Sintra e de Torres Vedras.

38º marco - 'No porto da Lageã (Lage) no herdamento de Vicente Cachouço.'

Desconhecido.

39º marco - 'Na amoerira do herdamento de Santa Cruz.'

Amoreira é hoje os Casais de S. Pedro da Amoreira.

40º marco - 'No porto do Soveral (Sobral).'

No que é hoje a vila do Sobral da Abelheira.

41º marco - 'No lagar que foi da riorta direita da Abelheira.'

Na mesma vila, Sobral da Abelheira.

42º marco - 'No porto de Santa Margarida.'

Designação hoje conhecida, perto da Picanceira.

43º marco - 'Nos picanços (Picanceira) dereito (direito) da quintaam (quinta) que ffoy da Reya (Rainha) e chamam Fanga da ffé.'

 Este marco tem várias designações ainda hoje conhecidas. Picanços é a actual povoação da Picanceira. Quintaam da Reya é a denominação da quinta que era da Rainha Santa Isabel, por doação feita em Santarém a 28 de Novembro de 1298, de El-Rei D. Dinis à Rainha Santa, dando lugar ao que é hoje a povoação de Quintas da freguesia da Encarnação. A demarcação deste couto não passava para o Norte do curso do Ribeiro do Safarujo. A menção à quinta da Rainha é apenas para definir onde ficavam os picanços (Picanceira).

...45º marco - 'Nos moyos (moinhos) de Martim Filho.'

46º marco - 'No porto e vya (caminho) dos frades doya (Santa Maria de Oia).'

Este porto é hoje a povoação do Safarujo, que fica a Sul do que era o Mosteiro de Santa Maria de Oia, da Galiza, o qual foi fundado por frades galegos, concessão dada por D. Afonso Henriques e confirmada por seu filho D. Sancho I. Hoje ainda existe uma pequena capela no cimo desse monte. Ao redor desta capela encontramos as ruínas do que teria sido o mosteiro e junto à capela, algumas lápides datadas do século passado (sec. XIX).

Ao visitarmos estes lugares, falando com pessoas da povoação da Galiza (topónimo originário deste Mosteiro) ficámos a saber que, hoje, o vale tem duas denominações: para Leste, junto ao antigo Mosteiro, é conhecido por Vale dos Frades, mais para Oeste é conhecido como o Vale do Inferno. Desconhecemos a data da extinção deste Mosteiro. Pensa-se que o rio foi navegável até ao Mosteiro, no que é hoje a povoação do Safarujo. O caminho mencionado neste marco, deve ser o caminho que seguia pela margem Sul do ribeiro, em direcção a Ribamar, na encosta do Cacho Longo. Esta encosta fica pelo Norte da primeira curva que encontramos na estrada depois de passar a ponte de S. Lourenço, para quem vem no sentido Norte-Sul. Ainda hoje se chama à vinha dessa encosta, Cacho Longo.

47º marco - 'Na riba da agua hu chamam a ffoz de Santa Susana.'

Este era o último marco desta demarcação cujo território ficava compreendido entre as ribeiras: Cheleiros a Sul (Lizandro) e do Safarujo ou Codeçal a Norte (S. Lourenço) fazendo extremo um pouco a Nascente da vila de Mafra, o que se poderá considerar como demarcações das actuais freguesias: Mafra, Santo Isidoro e Ericeira.

A foz ou praia conhecida hoje como de S. Lourenço, é uma denominação mais recente que começou nos finais do século passado (XIX), mantendo-se durante todo este século (XX). Anteriormente era conhecida como Santa Susana, tendo existido o forte seiscentista nas ribas da parte Sul desta praia com esse nome. A povoação de S. João Baptista de Ribamar, apesar de já existir aquando da construção do forte, a qual é mencionada no registo das cidades, vilas e lugares da Comarca da Estremadura em 1527 (22), é durante a construção deste forte no século XVII que se dá a grande expansão demográfica, pela fixação dos trabalhadores que estavam construindo o forte. Depois da construção do forte a grande maioria dos trabalhadores fixaram residência nesta povoação. Talvez venha daí o erro que certas pessoas cometem ao considerarem que a povoação de Ribamar é originária da construção do forte de Santa Susana.  

(22) - Com seis vizinhos, ou seja seis fogos. 

"História da Ericeira", 1ª edição - 1998 de Leandro Miguel dos Santos 

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